PRIVAÇÃO, APRENDIZAGEM E DESCOBERTA

Caro Estudante,

A imprevisível, súbita, generalizada e incerta situação presente terá múltiplas e variadas consequências: a interrupção do planeado, desalento, receio, medo e angústia; a incerteza, companheira omnipresente, mesmo quando a ignoramos; uma estranha noção de vazio e apercebermo-nos que, afinal, temos em excesso o que mais nos faltava – tempo.
Tempo, o mais objectivo e subjectivo elemento determinante da nossa Vida; o único que é igual e sempre diferente entre mim e o outro. Criámos, usamos e somos regulados por medidores do tempo, mas frequentemente desdenhamos a sua informação (já passou? Nunca mais acaba? O que fiz hoje?…).
Verificamos como o tempo aumenta exponencialmente com as privações e nem sempre depende de nós libertarmo-nos delas. Estes são tempos de privação que, paradoxalmente, potenciam a criação de oportunidades.
Há muito que a justificação/explicação predominante para o insucesso de estudantes – e professores – é “não tive tempo para estudar, para fazer o trabalho,… porque…”.
Ora, este pode ser o tempo certo para transformar privações em oportunidade de fazer o fundamental: estudar para mais e melhor aprendizagem. Todo o tempo não será demais para exercitar a curiosidade e aumentar o nosso conhecimento.
Vamos fazer da ausência presença, com o apoio e estímulo dos professores e com a autonomia essencial à vossa própria construção como futuros profissionais competentes e como pessoas. Vamos descobrir – ou saber mais – sobre a vossa condição de estudantes universitários; ler, pensar e discutir sobre o que é a Universidade; reflectir sobre o que é ser Professor/Treinador; compreender, interpretar e reflectir sobre o que lemos e ouvimos; compreender e ligar toda a informação e conhecimento importante para o vosso futuro.
Há 29 anos que convosco apreendo melhor o significado e consequências do que são privações e sei como tantas vezes foram superadas com sucesso. É o exemplo de tantos de vós que me inspira e renova a necessária energia em momentos de maior dificuldade. Também por isso decidi escrever estas palavras no Dia do Estudante, neste ano que ficará para sempre gravado na nossa memória e na História da Humanidade.
Vamos, todos, das privações fazer aprendizagem e descoberta; de mim, do outro e da Sociedade em que vivemos, transformando-a.

      Sintra, 24 Março 2020
Jorge Proença